sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Simbolismo no Brasil

 O simbolismo é uma estética do século XIX e tem como marco, no Brasil, a publicação de Missal e Broqueis de Cruz e Sousa. Trata-se de uma estética de oposição ao parnasianismo e sua ausência de sentimentalismo ou sentimentalismo comedido. Em aspectos formais, os simbolistas acentuam, em alguma medida, o ideal de “arte pela arte” pelo requinte e rebuscamento dos poemas. Quanto à temática, o simbolista não aceita a separação entre sujeito e objeto, entre artista e assunto, pois “o mundo e a alma têm afinidades misteriosas e as coisas mais dispares revelar parentesco inesperado”. Para o simbolista a obra de arte não é um objeto fechado e permite várias leituras, sendo, para tanto, imprecisa, obscura, fugidia.

Seguindo o exemplo francês e o lusitano, o simbolismo brasileiro também caminha pelo onírico (sonho), pela loucura, pelo devaneio, pelo metafísico, pela espiritualidade, pelo inconsciente e subconsciente. Assim como os românticos, os simbolistas também valorizavam a morte, entretanto, direcionada ao transcendental, ao metafísico, ao espiritual. Quanto à estrutura, há uma linguagem simbólica bastante rebuscada com privilégio ao fonético, já que busca musicalidade. Figuras como sinestesiametonímia e metáfora serão muito utilizadas.

Os principais nomes do simbolismo no Brasil foram Cruz e Sousa e Alphonsus Guimarães. Esses dois poetas foram considerados mestres e influenciaram profundamente os mais jovens.

Cruz e Sousa

O escritor Cruz e Sousa.

O escritor Cruz e Sousa.

Em 1893, Cruz e Sousa publicou a obra Missal, um conjunto de poemas em prosa (prosa poética) que segue algo comum no simbolismo: o experimentalismo em prosa já visto em Baudelaire (poeta realista considerado precursor do simbolismo francês).

Navios - Cruz e Sousa

Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina areia úmida e miúda de cômoro.

Brancuras de luz da manhã prateiam as águas quietas, e, à tarde, coloridos vivos de acaso as matizam de tintas rútilas, flavas, como uma palheta de íris.

Navios balanceados num ritmo leve flutuam nas vítreas ondas virgens, com o inefável aspecto nas longas viagens, dos climas consoladores e meigos, sob a candente chama dos trópicos ou sob a fulguração das neves do Pólo.

Alguns deles, na alegre perspectiva marinha, rizam matinalmente as velas e parte — mares afora — visões aquáticas de panos, mastros e vergas, sob o líquido trilho esmaltado das espumas, em busca, longe, de ignotos destinos.

Á tarde, no poente vermelho, flamante, dum rubro clarão d'incêndio, os navios ganham suntuosas decorações sobre as vagas.

O brilho sangrento do ocaso, reverberando na água, dá-lhes uma refulgência de fornalha acesa, de bronze inflamado, dentre cintilações de aço polido.

Os navios como que vivem, se espiritualizam nesta auréola, neste esplendor feérico de sangue luminoso que o ocaso derrama.

E mais decorativos são esses aspectos, mais novos e fantasiosos efeitos recebem as afinadas mastreações dos navios, donde parece fluir para o alto uma fluida e fina hormonia, quando, após o esmaecer da luz, a Via-Láctea resplende como um solto colar de diamantes e a Lua surge opaca, embaciada, num tom de marfim velho.

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