quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Realismo

 O Realismo é um movimento artístico que buscou objetividade e olhar crítico sobre a sociedade do final do século XIX.

Ilustração do próprio autor, Gustave Flaubert, para o livro Madame Bovary, umas das obras-primas do Realismo.
Ilustração do próprio autor, Gustave Flaubert, para o livro Madame Bovary, umas das obras-primas do Realismo.


Realismo foi um dos principais movimentos artísticos do final do século XIX. Com diversas formas de manifestação, a arte realista teve grande importância tanto na Europa quanto no Brasil. Na Literatura, autores como Gustave Flaubert e Machado de Assis são considerados como leitura obrigatória para quem pretende compreender o movimento.
 

Origem do Realismo

O Realismo é um movimento artístico cujo precursor, na Literatura, é o francês Gustave Flaubert. A obra Madame Bovary é considerada o primeiro romance realista da história da Literatura.  O livro Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é considerado a narrativa inaugural do movimento no Brasil. Veja, abaixo, um trecho inicial desse romance machadiano:

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas.

Em Memórias póstumas de Brás Cubas,

Machado de Assis


Nota-se que, nesse trecho do romance, é possível perceber algumas das características fundamentais do Realismo, tais como a perspectiva objetiva e não idealizada da sociedade, assim como uma fina ironia, típica da obra de Machado de Assis.


Contexto histórico do Realismo

Os principais fatos históricos que permeiam o Realismo são:

  • Desenvolvimento de teorias científicas na Europa, tais como o
  • Evolucionismo;
  • Comunismo;
  • Determinismo;
  • Positivismo;
  • Abolição da escravidão no Brasil, em 1888;
  • Proclamação da República brasileira, em 1889;

Principais características do Realismo

As principais características do Realismo remetem a uma oposição ao movimento artístico anterior, o Romantismo. Nesse sentido, opondo-se à idealização amorosa, os realistas representavam figuras humanas profundas, que fugiam aos estereótipos de herói,  da amada ou do vilão, típicos dos românticos. Além disso, a perspectiva egocêntrica, muito comum na segunda geração do romantismo, é substituída por um olhar o mais objetivo possível, buscando representar a realidade de modo impessoal ou crítico, sempre afastando o olhar apaixonado dos objetos retratados.

Principais autores e obras do Realismo

O Realismo foi um movimento amplo e teve manifestações em diversas formas de artes. Nesse sentido, vale a pena conhecer a obra dos seguintes artistas para compreender melhor a estética realista:

  • Gustave Courbet;
  • Jean-François Millet;
  • Auguste Rodin;
  • Jean-Baptiste Camille Corot;
  • Francesco Hayez.

Realismo na Literatura

Para além da obra de Gustave Flaubert, autor do já citado Madame Bovary, vale a pena conhecer outros autores europeus como:

  • Balzac;
  • Eça de Queirós;
  • Émile Zola;
  • Dostoiévski.

Realismo no Brasil

No Brasil, o Realismo teve como principal representante Machado de Assis, autor de célebres livros, como Memórias póstumas de Brás Cubas Dom Casmurro. Outros autores de destaque em terras nacionais são Aluísio Azevedo, autor de O mulato O cortiço, romances considerados realistas naturalistas; e Visconde de Taunay, escritor de Inocência.


Por Me. Fernando Marinho

https://www.portugues.com.br/literatura/realismo.html

Barroco

 Barroco é o nome de um estilo de época surgido no final do século XVI, na Itália, e caracterizado por forte influência religiosa, devido ao contexto histórico marcado pela Reforma Protestante e pela Contrarreforma. No entanto, ao lado de tanta religiosidade, havia também, na época, um forte apelo aos prazeres sensoriais. Desse modo, o estilo configura-se, basicamente, na aproximação dos opostos.

Portanto, são características presentes em obras de Gregório de Matos e Pe. António Vieira, os principais autores do Barroco brasileiro: culto ao contraste, fusionismo, pessimismo, feísmo, cultismo, conceptismo, além do uso de antítese, paradoxo, hipérbole, hipérbato e sinestesia.

Contexto histórico do Barroco

Devido ao conflito entre católicos e protestantes, o cristianismo ganhou força no século XVI.
Devido ao conflito entre católicos e protestantes, o cristianismo ganhou força no século XVI.

Dois fatos históricos, no século XVI, foram de grande influência nas obras dos autores barrocos: a Reforma Protestante e a Contrarreforma. Essa última ocorreu como uma reação diante da perda de fiéis devido ao protestantismo (luteranismo e calvinismo).

→ Reforma Protestante

  • O padre alemão Martinho Lutero (1483-1546) denunciou a venda do perdão como prática corrupta da Igreja Católica.
  • Lutero defendia que a salvação só é conseguida por meio de uma vida marcada pela religiosidade, pelo arrependimento dos pecados e pela fé em Deus.
  • Ao entenderem que não precisavam pagar, com doações e penitências, pela absolvição, muitos fiéis abandonaram a Igreja para seguir o luteranismo.
  • João Calvino (1509-1564) defendia a ideia de que o lucro obtido pelo trabalho é uma dádiva divina, o que aumentou a debandada de fiéis.
  • Assim, parte da burguesia aderiu ao protestantismo.

→ Contrarreforma Católica

  • No Concílio de Trento (1545-1563), a Igreja definiu ações para combater a Reforma Protestante.

→ Medidas importantes:

  • Ressurgimento do Tribunal do Santo Ofício (Santa Inquisição);
  • Criação do Índice dos livros proibidos — Index librorum prohibitorum;
  • Fundação da Companhia de Jesus pelo padre Inácio de Loyola (1491-1556).

Assim, a influência religiosa foi marcante na formação dos autores barrocos. Porém, em oposição (ou como consequência) a essa religiosidade, havia também um forte apelo aos prazeres sensoriais, um desejo de se entregar à mundanidade. Portanto, essa época ficou marcada pela oposição e pelo conflito.

Características do Barroco

Barroco é um estilo de época marcado pela oposição e pelo conflito, o que acaba revelando uma forte angústia existencial. Dessa forma, as obras literárias dessa época apresentam visões opostas (aproximação de opostos), tais como:

  • Antropocentrismo versus teocentrismo
  • Sagrado versus profano
  • Luz versus sombra
  • Paganismo versus cristianismo
  • Racional versus irracional
  • Material versus espiritual
  • Fé versus razão
  • Carne versus espírito
  • Pecado versus perdão
  • Juventude versus velhice
  • Céu versus terra
  • Erotismo versus espiritualidade
    Judite e Holofernes (1599), obra barroca do pintor Caravaggio, abordando temática bíblica e uso da técnica de chiaroscuro (claro-escuro).
Judite e Holofernes (1599), obra barroca do pintor Caravaggio, abordando temática bíblica e uso da técnica de chiaroscuro (claro-escuro).

Além do culto ao contraste, o estilo possui também estas características:

  • Fusionismo: fusão entre a visão medieval e a renascentista;
  • Antítese e paradoxo: refletem uma época de contrastes;
  • Pessimismo: a felicidade, impossível na Terra, só se realizaria no plano celestial;
  • Feísmo: fascinação pela miséria humana, crueldade, dor, podridão e morte;
  • Rebuscamento: ornamentação excessiva da linguagem, atrelada a um apelo visual;
  • Hipérbole: exagero;
  • Sinestesia: apelo sensorial;
  • Cultismo ou gongorismo: jogo de palavras (sinônimos, antônimos, homônimos, trocadilhos, figuras de linguagem, hipérbatos);
  • Conceptismo ou quevedismo: jogo de ideias (comparações e argumentação engenhosa);
  • Morbidez;
  • Sentimento de culpa;
  • Carpe diem: aproveitar o momento;
  • Emprego da medida nova: versos decassílabos;
  • Principais temáticas: fragilidade humana, fugacidade do tempo, crítica à vaidade, contradições do amor.

É preciso ressaltar que a presença de luz e sombra, nos textos barrocos, normalmente, está associada à juventude (luz) e à velhice (sombra). Nessa perspectiva, o poeta barroco sempre lembra aos leitores o quanto a juventude é fugaz e o quão rápido chega a velhice e, consequentemente, a morte. Há, por isso, uma supervalorização da juventude e dos prazeres que essa fase da vida pode oferecer.

Nessa mesma linha de pensamento, a natureza, quando retratada, serve para lembrar que a beleza – por exemplo, a de uma rosa – é fugaz, assim como a juventude. Além disso, imagens como a da aurora (transição entre a noite e o dia) e a do crepúsculo (transição entre o dia e a noite) simbolizam o dualismo típico do estilo barroco.


Barroco na Europa

O Barroco surgiu na Itália e espalhou-se pela Europa e América. No entanto, os maiores nomes da literatura barroca europeia são os espanhóis Luis de Góngora (1561-1627) e Francisco de Quevedo (1580-1645). Já o Barroco português (1580-1756) contou com estes autores:

  • Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622): A primavera (1601);
  • Jerónimo Baía (1620-1688): poema Ao menino Deus em metáfora de doce;
  • António Barbosa Bacelar (1610-1663): soneto A uma ausência;
  • António José da Silva (1705-1739), “o Judeu”Obras do diabinho da mão furada;
  • Gaspar Pires de Rebelo (1585-1642): Infortúnios trágicos da constante Florinda (1625);
  • Teresa Margarida da Silva e Orta (1711-1793): Aventuras de Diófanes (1752);
  • Pe. António Vieira (1608-1697): Os sermões (1679);
  • D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666): Obras métricas (1665);
  • Soror Violante do Céu (1601-1693): Romance a Cristo Crucificado (1659);
  • Soror Mariana Alcoforado (1640-1723): Cartas portuguesas (1669).
Soror Mariana Alcoforado, retratada na capa do livro Cartas de amor ao cavaleiro de Chamilly (1914).
Soror Mariana Alcoforado, retratada na capa do livro Cartas de amor ao cavaleiro de Chamilly (1914).

A seguir, vamos ler alguns trechos|1| de uma das cartas de amor de Soror Mariana Alcoforado. O que chama a atenção é a aproximação entre o sagrado e o profano, já que ela era uma freira, vivia em um lugar considerado sagrado e, nesse mesmo lugar, deu vazão ao seu desejo erótico:

“Acho que acabo causando um mal enorme aos meus sentimentos quando me esforço para explicá-los a você numa carta. Como eu ficaria feliz se você pudesse compreendê-los pela intensidade dos seus! Mas não devo confiar em você, nem posso deixar de dizer — ainda que sem a violência com que sinto — que você não devia me maltratar desse jeito, com um desprezo que me leva ao desespero, e que chega a ser vergonhoso para você. É justo que você suporte pelo menos as queixas dessa infelicidade que previ quando você decidiu me deixar.

[...]

Atribuo toda essa infelicidade à cegueira com que me deixei unir a você. Não devia eu ter previsto que meu prazer terminaria mais depressa que meu amor? Como eu podia esperar que você ficasse em Portugal pelo resto de sua vida, que renunciasse a seu futuro e a seu país para pensar somente em mim? Não há alívio possível para meu sofrimento, e a lembrança daquele prazer me enche de desespero. Será que todo o meu desejo foi inútil, então, e que jamais verei você de novo em meu quarto, cheio de ardor e do êxtase que me mostrava? Meu Deus, como me iludi!

Sei que todas as emoções que ocupavam minha cabeça e meu coração só despertavam em você no momento de certos prazeres; e que, como eles, logo desapareciam. Durante aqueles momentos tão felizes, eu devia ter apelado à razão e moderado o fatal exagero da delícia do prazer, e me prevenido contra tudo o que hoje sofro. Mas eu me entregava tão inteiramente a você que não tinha condição de pensar em nada que fosse destruir minha alegria e me impedir de gozar plenamente o testemunho ardente da sua paixão. Sentir que eu estava com você era tão maravilhoso que eu não tinha como imaginar que um dia você estaria longe de mim.

[...]”

Barroco no Brasil

Estátua de Pe. António Vieira, em Lisboa. [1]
Estátua de Pe. António Vieira, em Lisboa. [1]

No Brasil, o Barroco (1601-1768) foi inaugurado pelo livro Prosopopeia (1601), de Bento Teixeira (1561-1618). No entanto, os principais autores desse estilo no país são Gregório de Matos (1636-1696) e Pe. António Vieira (1608-1697).

  • Pe. António Vieira

Pe. António Vieira é conhecido pelos seus sermões conceptistas, com argumentação engenhosa. Seus textos enaltecem a fé cristã e a monarquia portuguesa. Porém, foi perseguido pela Inquisição por defender os cristãos-novos (judeus convertidos ao catolicismo). Sua principal obra é Os sermões, de 1679.

A seguir, vamos ler a primeira parte do Sermão do Mandato de 1643. Nesse sermão, Vieira defende que Deus está doente de amor:

“Quem entrar hoje nesta casa — todo-poderoso e todo amoroso Senhor — quem entrar hoje nesta casa — que é o refúgio último da pobreza e o remédio universal das enfermidades — quem entrar, digo, a visitar-vos nela — como faz todo este concurso da piedade cristã — com muito fundamento pode duvidar se viestes aqui por pródigo, se por enfermo. Destes o céu, destes a terra, destes-vos a vós mesmo, e quem tão prodigamente despendeu quanto era e quanto tinha, não é muito que viesse a parar em um hospital. Quase persuadido estava eu a este pensamento, mas no juízo dos males sempre conjecturou melhor quem presumiu os maiores. Diz o vosso evangelista, Senhor, que a enfermidade vos trouxe a este lugar, e não a prodigalidade. Enfermo diz que estais, e tão enfermo que a vossa mesma ciência vos promete poucas horas de vida, e que por momentos se vem chegando a última: Sciens Jesus quia venit hora ejus (Jo. 13, 1). Qual seja esta enfermidade, também o declara o Evangelista. Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável. De amor: cum dilexisset; de amor nosso: suos qui erant in mundo; e de amor incurável e sem remédio: in finem dilexit eos. Este é, enfermo Senhor, e saúde de nossas almas, este é o mal ou o bem de que adoecestes, e o que vos há de tirar a vida. E porque quisera mostrar aos que me ouvem que, devendo-vos tudo pela morte, vos devem ainda mais pela enfermidade, só falarei dela. Acomodando-me pois ao dia, ao lugar e ao Evangelho, sobre as palavras que tomei dele, tratarei quatro coisas, e uma só. Os remédios do amor e o amor sem remédio. Este será, amante divino, com licença de vosso coração, o argumento do meu discurso. Ainda não sabemos de certo se o vosso amor se distingue da vossa graça. Se se não distinguem, peço-vos o vosso amor, sem o qual se não pode falar dele, e se são coisas distintas, por amor do mesmo amor vos peço a vossa graça. Ave Maria.”

Nesse trecho, podemos perceber as seguintes marcas barrocas:

  • Conceptismo: Vieira inicia a defesa de uma ideia;
  • Pessimismo: “[...], mas no juízo dos males sempre conjecturou melhor quem presumiu os maiores”;
  • Antíteses: “[...] enfermo Senhor, e saúde de nossas almas, este é o mal ou o bem de que adoecestes, e o que vos há de tirar a vida. E porque quisera mostrar aos que me ouvem que, devendo-vos tudo pela morte, [...]”; “Os remédios do amor e o amor sem remédio”; e “Ainda não sabemos de certo se o vosso amor se distingue da vossa graça. Se se não distinguem, peço-vos o vosso amor, […]”;
  • Paradoxo: “[...], tratarei quatro coisas, e uma só”.

No decorrer do sermão, os leitores entendem que quatro coisas são essas — os remédios do amor. São eles: o tempo, a ausência, a ingratidão e o melhorar de objeto. No entanto, esses remédios provocam o efeito contrário em Deus, pois aumentam ainda mais o seu amor.

  • Gregório de Matos

Gregório de Matos compôs suas poesias explorando as mais diversas temáticas, desde o amor à crítica social.
Gregório de Matos compôs suas poesias explorando as mais diversas temáticas, desde o amor à crítica social.

Gregório de Matos, conhecido também como Boca do Inferno, é o representante máximo da poesia barroca brasileira. Sua poesia é assim dividida:

  • Lírica ou filosófica: temática amorosa, oposição entre espírito e matéria, fugacidade do tempo;
  • Sacra: temática religiosa, fragilidade humana e medo da condenação divina;
  • Satírica: crítica social, econômica e política.

No soneto Inconstância dos bens do mundo, o eu lírico, a partir de antíteses, expõe sua percepção de que a luz do Sol não dura mais do que um dia; portanto, a noite sempre chega. Além disso, a beleza acaba, e a alegria transforma-se em tristeza.

Ele demonstra a sua angústia diante da inconstância das coisas do mundo e conclui que, se nem a luz é firme, duradoura, a beleza também não pode ser. Essa constatação explica o paradoxo “E na alegria sinta-se tristeza”, ou seja, a alegria da juventude e a tristeza de saber que ela é passageira. Por fim, o eu lírico conclui que a inconstância é suprema:

Inconstância dos bens do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Já no soneto A Cristo S. N. crucificado, um exemplo de sua poesia sacra, o eu lírico dialoga com Jesus. Diz, paradoxalmente, que se opõe à lei de Deus, mas que vai morrer nessa lei, isto é, vive uma vida de pecado, mas, no final, na hora da morte, será salvo pelo arrependimento.

Nessa hora, segundo o eu lírico, Deus será brando, manso, e perdoará os seus pecados. Ele diz que o amor de Deus é muito grande e o pecado dele (do eu lírico) também; no entanto, argumenta, o pecado pode acabar, mas o amor de Deus é infinito. Por isso, ele tem certeza de que, por mais que peque, no final, pode salvar-se:

A Cristo N. S. crucificado

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro:

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.

E, por fim, o poema A uma que lhe chamou “pica-flor”, feito em resposta a uma freira que zombou do poeta devido à sua magreza e lhe chamou de “pica-flor”, ou seja, beija-flor. Assim, nesse texto satírico, de cunho erótico, o eu lírico ataca aquela que o ofendeu. Para o entendimento do poema, é preciso associar o verbo “pica” ao órgão sexual masculino e o substantivo “flor” ao órgão sexual feminino. A partir daí, há a sugestão de uma relação sexual entre o eu lírico e a freira a quem é direcionado o poema:

Se Pica-flor me chamais,
Pica-flor aceito ser,
mas resta agora saber
se no nome, que me dais,
meteis a flor, que guardais
no passarinho melhor!
Se me dais este favor,
sendo só de mim o Pica,
e o mais vosso, claro fica,
que fico então Pica-flor.

Leia também: Classicismo – utilizou o soneto como uma das principais formas poéticas

Resumo do Barroco

  • Contexto histórico da Reforma Protestante e da Contrarreforma Católica.
  • Características:

- Culto ao contraste;

- Antítese e paradoxo;

- Pessimismo;

- Rebuscamento;

- Hipérbole;

- Cultismo ou gongorismo;

- Conceptismo ou quevedismo;

- Morbidez;

- Sentimento de culpa;

- Carpe diem;

- Emprego da medida nova.

Principais temáticas:

- Fragilidade humana;

- Fugacidade do tempo;

- Crítica à vaidade;

- Contradições do amor.



https://brasilescola.uol.com.br/literatura/o-barroco.htm

Arcadismo

 Arcadismo foi o principal movimento literário do século XVIII. Outros nomes dados ao estilo são: Setecentismo ou Neoclassicismo - a partir deste último, inclusive, percebe-se a relação do Arcadismo com valores da cultura clássica, ou seja, valores gregos, romanos e renascentistas. Os escritores árcades são conhecidos por oporem-se ao estilo barroco, inspirando-se em preceitos do Iluminismo.

Características

O movimento árcade foi fortemente influenciado pela cultura gregalatina e renascentista. A clareza e a harmonia nos temas e nas formas afastaram das produções literárias a linguagem rebuscada e confusa do Barroco. As antíteses e paradoxos do homem do século XVII passaram a dar lugar ao sujeito racional, que buscava a simplicidade e a racionalidade em suas obras.

Uma das principais características árcades é a herança da cultura clássica (greco-latina e renascentista). Alguns preceitos latinos que inspiraram os escritores árcades são:

Inutilia Truncat: Esse preceito dialoga com a necessidade de “tirar o inútil” da poesia, entendendo-se esse inútil como sendo o excesso de rebuscamento formal do movimento Barroco.

Fugere Urbem: Para os líricos do Arcadismo, a cidade não era o ambiente ideal para viver, pregando-se, portanto, a fuga da urbanidade como meta a ser alcançada.

Locus Amoenus: Atrelado ao fugere urbem, esse preceito afirma que o campo, o ambiente bucólico, é o ideal para o homem.

Carpe Diem: Segundo esse preceito, é necessário aproveitar o presente para contemplar a realidade, sem se preocupar com o futuro.

Aurea Mediocritas: Segundo essa expressão, o homem mediano é aquele que alcança a felicidade, não se devendo, assim, procurar riquezas e posses em vida.    

Além do retorno aos clássicos, o Arcadismo também foi muito influenciado pelo Iluminismo, movimento filosófico que compreendia ser a razão o maior valor humano, e pelo desenvolvimento técnico e tecnológico que modernizou os meios de produção da época e produziu um forte êxodo rural e expansão urbana.

Contexto histórico

O Arcadismo é o principal movimento literário do século XVIII. Seu contexto é marcado, como dissemos anteriormente, pelo Iluminismo e pelo avanço técnico e tecnológico que produziram a industrialização e o consequente êxodo rural. O período é fundamental para compreender o declínio do absolutismo e a ascensão da burguesia.

Os autores árcades dialogam, em suas obras, com questões fundamentais da época, tais como a relação entre o homem e a riqueza (aurea mediocritas é um conceito que discute isso, por exemplo) ou como era viver na cidade (os preceitos fugere urbem e locus amoenus são referentes a esse assunto).    

Diferenças entre Arcadismo e Barroco

O Arcadismo é o movimento literário que ocorre após o Barroco. Enquanto o Barroco representa um homem em conflito entre o sagrado e o profano (é bom lembrar que nessa época, século XVII, a Contrarreforma havia restaurado vários valores medievais no mundo), o Arcadismo apresenta um sujeito fiel à razão, crente na ciência. Além disso, vale dizer que linguagem do Barroco era rebuscada e cheia de paradoxos, enquanto, no Arcadismo, comunica-se com mais clareza e simplicidade.

Principais autores do Arcadismo no Brasil e em Portugal

O Arcadismo desenvolveu-se tanto no Brasil quanto em Portugal. Os principais autores são:

Veja, a seguir, trechos de poemas árcades:

Camões, grande Camões, quão semelhante

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co'o sacrílego gigante;
 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante.
 

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura.
 

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...

Se te imito nos transes da Ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.

Bocage

Nesse poema, percebemos que o sujeito lírico dialoga com o poeta renascentista Luís de Camões. É como se o escritor de Os lusíadas fosse uma espécie de mestre para o eu lírico, demonstrando clara valorização da cultura do classicismo.

Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

Que viva de guardar alheio gado;

De tosco trato, d’expressões grosseiro,

Dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto;

Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

Das brancas ovelhinhas tiro o leite,

E mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Eu vi o meu semblante numa fonte,

Dos anos inda não está cortado:

Os pastores, que habitam este monte,

Com tal destreza toco a sanfoninha,

Que inveja até me tem o próprio Alceste:

Ao som dela concerto a voz celeste;

Nem canto letra, que não seja minha,

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

[...]

Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga

No poema de Tomás Antônio Gonzaga, percebemos vários dos preceitos latinos anteriormente citados. Trata-se de um sujeito lírico vivendo no campo (locus amoenus), cultivando uma vida simples (aurea mediocritas), longe das dinâmicas de vida na cidade (fugere urbem). Além disso, percebemos também a valorização do amor e a idealização da amada, característica árcade que perduraria pelo movimento seguinte, o romantismo.


Por Me. Fernando Marinho


Bocage