terça-feira, 26 de abril de 2022

A Garça - Castro Alves

 

Eu sou como a garça triste, que mora a beira do rio...


“Eu sou como a garça triste /
Que mora à beira do rio, /
As orvalhadas da noite /
Me fazem tremer de frio. /

Me fazem tremer de frio, /
Como os juncos da lagoa; /
Feliz da araponga errante /
Que é livre e que livre voa. /

Que é livre e que livre voa /
Para as bandas do seu ninho, /
E nas braúnas à tarde /
Canta longe do caminho. /

Canta longe do caminho. /
Por onde o vaqueiro trilha, /
Se quer descansar as asas /
Tem a palmeira, a baunilha. /

Tem a palmeira, a baunilha. /
Tem o brejo, a lavadeira, /
Tem as campinas, as flores, /
Tem a relva, a trepadeira. /

Tem a relva, a trepadeira. /
Todas têm os seus amores, /
Eu não tenho mãe, nem filhos /
Nem irmãos, nem lar, nem flores."
(Trecho do poema “Tragédia no Lar” de Castro Alves)
Sinto sempre que este sou eu...como me sinto...

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Revolução Russa

 A história do século XX teve na Revolução Russa de 1917 um de seus principais eventos.  A construção do Estado soviético pelos membros do partido bolchevique resultou em uma mudança das formas de desenvolvimento econômico verificadas até aquele momento.

A modernização da sociedade russa ocorreu de forma distinta das sociedades capitalistas da Europa Ocidental. Em vez da constituição de uma sociedade industrializada baseada na ação da burguesia e amparada pela propriedade privada dos meios de produção, o que se verificou foi um processo de industrialização e modernização social cujo centro era o Estado.  

O Estado soviético passou a ser o detentor da propriedade dos meios de produção. Essa centralidade da propriedade proporcionou aos controladores do Estado, burocratas do partido bolchevique e administradores das empresas, uma capacidade de planejamento econômico e social cuja amplitude não havia sido experimentada em lugar algum.

Mas para compreender esse resultado da Revolução Russa, é necessário antes acompanhar os caminhos do processo revolucionário.


Antecedentes

O processo de modernização da sociedade russa ganhou forte impulso na segunda metade do século XIX. Algumas medidas adotadas pelos czares da dinastia Romanov contribuíram para essa modernização.

Em 1861, houve a Emancipação dos Servos. O fim da servidão teve como uma de suas consequências uma maior liberdade de produção e comercialização por parte dos camponeses. Essa consequência resultou, por outro lado, na divisão interna do campesinato ao longo das décadas seguintes, com a estratificação entre camponeses ricos, médios e pobres. Porém, uma abundância de terras ainda pertencia à nobreza. Tal situação proporcionaria em 1917 uma das principais reivindicações da Revolução: a distribuição de terras.

Outro componente da modernização realizada no século XIX estava ligado ao estímulo à industrialização. Um excesso de capitais estrangeiros e russos, em menor parte, foi investida na construção de indústrias em algumas regiões ocidentais da Rússia. Nesses locais, como São Petersburgo e Moscou, formou-se uma numerosa classe operária originária do campesinato. A concentração operária nessas indústrias superava a existente nas mais desenvolvidas economias do ocidente europeu.

Essas alterações sociais e econômicas geraram contradições com a estrutura autoritária da autocracia czarista. A guerra russo-japonesa de 1905 foi o estopim do que se convencionou chamar ensaio revolucionário de 1917.

As consequências nefastas da guerra foram sentidas principalmente pelos camponeses, que forneciam os soldados para o exército russo. A morte na guerra, a fome e o frio daquele ano levaram parte da população de São Petersburgo a pedir ao czar medidas que sanassem suas dificuldades. Tal fato ocorreu em um domingo, no dia 22 de janeiro de 1905. A multidão que se dirigiu ao Palácio de Inverno, em São Petersburgo, foi recebida a tiros pelas tropas do czar. Iniciava-se, assim, a Revolução de 1905.

A principal característica dessa revolução foi a criação de um conselho de delegados dos trabalhadores de São Petersburgo. Essa forma de auto-organização dos operários russos ficou conhecida na história como soviete, que em russo significa conselho.

Paralelamente a esses fatos, alguns partidos políticos estavam se formando. É importante destacar os partidos que se desenvolviam junto às classes exploradas, como o dos socialistas-revolucionários, ligados aos camponeses, e o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), que se dividia em duas frações principais, os mencheviques e os bolcheviques.

No início de 1906, o czar conseguiu conter o processo revolucionário. Criou um parlamento, chamado Duma, apontando para o início de uma liberdade política nos moldes de uma monarquia constitucional. Mas durante os anos de 1906 e 1917, essa liberdade política não se verificou na prática.
 

Fevereiro de 1917

O Império Russo foi um dos principais interessados na Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914. Mas o exército russo não foi páreo paras as forças militares alemãs. Um dos resultados foi a deserção em massa de soldados da linha de frente. Outro foi a intensificação da fome entre a população que se mantinha em território russo.

Nos dias finais de fevereiro de 1917, uma manifestação pelo Dia Internacional da Mulher, em São Petersburgo, transformou-se em uma manifestação contra a fome vivenciada por boa parte da população. A manifestação conseguiu o apoio dos soldados insatisfeitos com a guerra. A insatisfação foi aumentando e as manifestações ganharam força.

Em 27 de fevereiro, soldados e trabalhadores invadiram o Palácio Tauride, conseguindo a renúncia do czar e a formação de um Governo Provisório. Ao mesmo tempo, os operários e soldados constituíram novamente os sovietes.

Essa situação ficou conhecida como duplo poder, com a burguesia e a aristocracia organizando-se na, Duma, e os trabalhadores, soldados e camponeses organizando-se nos sovietes.

A principal reivindicação da população era a saída da guerra e medidas para aplacar a fome, além da distribuição de terras.


Lênin, líder do partido bolchevique.*
Lênin, líder do partido bolchevique
Crédito: Iryna1 e Shutterstock.com


Após março de 1917, uma série de patrões passou a abandonar suas fábricas. Os operários, para não perderem seus empregos, começaram a ocupar as instalações das empresas e a organizar comitês de trabalhadores responsáveis pelo controle da produção.

Os conflitos sociais foram se intensificando. Iniciou-se um processo de abertura política. Em abril, um dos principais líderes bolcheviques, Lênin, voltou do exílio. A partir desse momento, ele conseguiu influenciar mais intensamente os rumos a serem tomados pelo partido bolchevique.

Em julho, forças militares ligadas ao czarismo tentaram derrubar o Governo Provisório, impedidas principalmente pelos operários e camponeses organizados. Percebendo o acirramento da situação de conflito social, os bolcheviques lançaram o lema Pão, Paz e Terra com o intuito de angariar apoio popular.

Em outubro de 1917, com a chegada do inverno, setores dos bolcheviques observaram a necessidade de tomarem uma medida mais radical, a tomada do poder. Os camponeses já estavam ocupando as terras da aristocracia e da igreja, os trabalhadores intensificavam a formação de sovietes e de comitês de fábrica.
 

Outubro de 1917

Em setembro, os bolcheviques haviam conseguido o controle do Soviete de São Petersburgo. Às vésperas do Segundo Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, os bolcheviques decidiram pela derrubada do Governo Provisório. Em 25 de outubro de 1917, o Instituto Smolni foi invadido pela Guarda Vermelha.

Baseando seu poder nos sovietes e aliados com a ala esquerda do partido socialista- revolucionário, os bolcheviques iniciaram as medidas para a construção do Estado Soviético. A realização da Assembleia Constituinte foi interrompida. O controle operário da produção foi instaurado. As terras da nobreza e da igreja foram divididas entre o campesinato. Para administrar o Estado, o Congresso dos Sovietes criou o Conselho dos Comissários do Povo.

Entre outubro de 1917 e março de 1918, os bolcheviques lançaram as bases do novo Estado. A administração da economia foi centralizada em instituições estatais que passaram a esboçar o planejamento da produção, buscando manter o controle operário das empresas sob certos limites. A Guarda Vermelha foi substituída pelo Exército Vermelho, comandado por Trotsky. O Tratado de Paz de Brest-Litovsk foi assinado com a Alemanha, retirando a Rússia da Primeira Guerra Mundial.
 

Guerra Civil

Logo após a assinatura do tratado de paz, iniciou-se na Rússia uma Guerra Civil, que durou de 1918 a 1921. As forças ligadas ao antigo regime czarista reuniram-se no Exército Branco. Conseguiram ainda apoio de potências capitalistas ocidentais para tentar derrubar o nascente poder soviético.

Leon Trotsky à frente de tropa do Exército Vermelho.**
Leon Trotsky à frente de tropa do Exército Vermelho
Crédito: Biblioteca da Universidade de Toronto

A organização soviética na Guerra Civil criou as bases da centralização estatal da economia e do controle da vida social. A constituição do Comunismo de Guerra procurava administrar o novo Estado. Tendo por base a militarização da economia, direcionando-a para os esforços da Guerra Civil, o Comunismo de Guerra impôs a disciplina militar nas indústrias e também passou a confiscar as colheitas dos camponeses.

Na Ucrânia, que havia se tornado independente, camponeses e operários organizaram-se em torno da guerrilha liderada por Nestor Makhno. A makhnovtchina foi uma importante organização na luta contra o Exército Branco e também na organização da produção, principalmente agrícola, na Ucrânia.

A ação da makhnovtchina e do Exército Vermelho conseguiu conter a invasão do Exército Branco. Porém, ao fim da Guerra Civil, a Rússia estava arrasada pela fome e pela destruição causada pela guerra. Porém, a militarização promovida pelos bolcheviques se manteve, principalmente no papel centralizador do Estado.

As forças de Makhno foram destruídas logo após a guerra civil. Uma rebelião contra o novo Estado, realizada na fortaleza de Kronstadt, foi massacrada pelos bolcheviques. Os marinheiros dessa fortaleza, que eram a principal força revolucionária da Rússia, pediam a eleição de sovietes livres, buscando assim diminuir o poder bolchevique.

Mesmo a liberdade econômica temporária, proporcionada pela Nova Política Econômica (NEP), não abalou as estruturas centralizadoras do Estado Soviético. O período de centralização do controle econômico, político e social da Guerra Civil moldou a forma de organização da URSS, principalmente a partir de 1928, quando as terras foram estatizadas sendo inaugurado o primeiro Plano Quinquenal. Os burocratas do partido e os administradores das empresas puderam com esse plano iniciar o planejamento da economia soviética, impulsionando a industrialização da URSS.



ENEM

 Criado em 1998, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica. Podem participar do exame, alunos que estão concluindo ou que já concluíram o ensino médio em anos anteriores.

 

O Enem é utilizado como critério de seleção para os estudantes que pretendem concorrer a uma bolsa no Programa Universidade para Todos (ProUni). Além disso, cerca de 500 universidades já usam o resultado do exame como critério de seleção para o ingresso no ensino superior, seja complementando ou substituindo o vestibular.

 


http://portal.mec.gov.br/enem-sp-2094708791#:~:text=Criado%20em%201998%2C%20o%20Exame,ensino%20m%C3%A9dio%20em%20anos%20anteriores.





segunda-feira, 28 de março de 2022

A Cartomante, de Machado de Assis

 

A Cartomante, de Machado de Assis



Leia o fragmento abaixo e responda às questões.
“Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando”.                      [12.º parágrafo].



02. Segundo o trecho acima, Camilo


A) Ainda criança, preferiu não acreditar em nada.
B) Desde criança desprezava superstições.
C) Diante do desconhecido, preferiu ficar indiferente.
D) Era crédulo, apesar de negar qualquer fé.
E) Negava qualquer envolvimento com religião.



03. Em relação às descrenças de Camilo, há uma opinião do narrador em:
A) “ diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.”
B) “ Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo (...)”
C) “ E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade”
D) “ No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião.”
E) “ Também ele, em criança, e ainda depois foi supersticioso”.

04. “ No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita...” , a expressão destacada refere-se a
A) Crendices.            B) Ensinos.              C) Ilusões.              D) Mistério.                E) Religião.

05. “...que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram.” , de acordo com o contexto a palavra destacada significa
A) Insinuar.                B) Informar.             C) Indicar.              D) Introduzir.              E) Invocar.

06. Em alguns momentos, o narrador deixa escapar juízos de valor em relação aos personagens e fatos. Podemos observar isso em


A) “ Os dois primeiros eram amigos de infância.”
B) “...onde casara com uma dama formosa e tonta”
C) “ Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez...”
D) “ Era um pouco mais velha que ambos...”
E) “ abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado”



07. Ao receber a primeira carta anônima Camilo deixou de ir com frequência a casa de Vilela pois


A) arrependeu-se da traição.
B) cansou-se da aventura.
C) ficou envergonhado.
D) já não gostava de Rita.
E) queria afastar a desconfiança.

sexta-feira, 25 de março de 2022

O Espelho, de Machado de Assis

 

Conteúdos

– Teoria sobre o conto
– Machado e seus contos
– Análise sobre “O Espelho”

Objetivos

– Aprender sobre o gênero conto
– Conhecer a história literária do autor
– Refletir sobre a narrativa do conto “O Espelho”

Previsão para aplicação:
3 aulas (50 min/aula)

1ª Etapa: Gênero literário - Conto

Para iniciar a aula, o(a) professor(a) poderá abordar com os estudantes o gênero literário conto, para que se aproximem deste. Podemos afirmar, em linhas gerais, que esse gênero foi se desenvolvendo ao longo de sua história, primeiro pela transmissão oral e depois por seu registro escrito. Posteriormente, a criação de novos contos possibilitou a consagração de seu caráter literário. Ricardo Piglia, no livro “Formas Breves” (acesso em: 21 de outubro de 2019) comenta que o conto sempre tem duas narrativas internas, uma visível e outra secreta e que cada uma é contada de uma forma diferente.

As narrativas apresentam grande flexibilidade de temas e possuem em sua estrutura uma introdução, desenvolvimento e um clímax. No ínicio é feita uma apresentação da ação, a ambientação do local e dos personagens, além dos fato acontecidos. No desenvolvimento da história, a narrativa é formada em grande parte por diálogos dos personagens ou por um fluxo de consciência do narrador. O clímax é o encerramento e possui muitas vezes desfechos surpreendentes.

Nádia Battela Gotlib, em Teoria do Conto (acesso em: 21 de outubro de 2019), aborda as diferentes interpretações sobre o gênero literário. A autora apresenta as concepções do termo sob a perspectiva de Poe, Maupassant, A. Jolles, entre outros.

Estrutura do Conto

– Poucos personagens;
– Espaço ou cenário limitado;
– Recorte temporal reduzido.

Machado de Assis escreveu diversos contos. Em “O espelho”, publicado em 1882 no livro “Papéis Avulsos” (acesso em: 22 de outubro de 2019), há características próprias a partir das quais o autor ficou conhecido, como a desconfiança, o ceticismo e o humor afiado. No conto, podemos observar as severas denúncias que fazia sobre os segredos de uma sociedade corrompida pela hipocrisia.  Neles, Machado também trata a respeito da contradição entre ser e parecer, entre vida pública e vida interior/íntima, entre a máscara e o desejo.

Fonte da imagem. Acesso em:  21 de outubro de 2019.

O(A) professor(a) deve indicar o conto “O espelho” para os alunos iniciarem a leitura em sala, se houver tempo, ou fazer a leitura em casa para a próxima aula.

2ª Etapa: “O Espelho”

Para iniciar a segunda etapa, o(a) professor(a) poderá iniciar com a música “Máscara”, da cantora Pitty. Acesso em: 22 de outubro de 2019.

Poderá solicitar aos alunos que reflitam sobre a música e como ela se relaciona com o conto. Após o debate, o(a) professor(a) iniciará perguntando sobre o conto:

– Quem são os personagens da narrativa?
– Na sua opinião, qual a ligação existente entre a música e o conto “O Espelho”?

O conto se inicia com um subtítulo – “Esboço de uma nova teoria da alma humana”.

Podemos entender que o conto trata de uma nova teoria, baseada na história de Jacobina, sobre a psique humana.  Jacobina, homem de meia idade, conversa em uma sala com seus quatro amigos sobre diversos assuntos até que toma a palavra para narrar um episódio que lhe aconteceu em sua juventude e apresentar sua nova teoria sobre os homens:

Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. (ASSIS, p.2)

Para Jacobina, a natureza da alma exterior é momentânea, ou seja, pode se agarrar a qualquer coisa que seja do seu interesse pessoal “…pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação”, para o personagem a alma exterior é parte da representação da vida real.

Durante a narrativa, o personagem faz questão de demonstrar as gentilezas da família, como as de sua tia Marcolina, que o recebe para uma temporada e também dos escravos que alimentavam seu ego de Alferes (acesso em: 22 de outubro de 2019) – um posto ou graduação militar existente nas forças armadas de alguns países. Normalmente, corresponde a um posto das categorias de oficial subalterno ou de cadete/oficial aluno.

E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes”. Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o “senhor alferes”, não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples… Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom. (ASSIS, p.3)

No trecho acima, podemos observar que a nova carreira de Jacobina transformou-o de “Joãozinho” em “senhor Alferes”, pois ao perder seu nome próprio, se transforma em um cargo que define quem ele é. Ao ganhar o objeto mais valioso da casa – o espelho de uma das fidalgas da corte de D. João VI – sente-se alguém importante diante das pessoas que massageavam seu ego. Para Jacobina, o cargo eliminou a simplicidade de antes e, assim, se valoriza somente o exterior, ou seja, a sua posição hierárquica.

O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?
– Não.
– O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. (ASSIS, p.3)

Ao ficar sozinho na casa da tia sem seus cuidados e os agrados dos escravos, sentiu-se só e sem valor real. Ficou com medo de se olhar para o espelho sem a farda, porém decidiu se observar depois de alguns dias.

Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas.(ASSIS, p.4)

Seu espanto foi tremendo ao encontrar no espelho um rosto difuso, somente linhas sem definição. Após momentos de angústia por não se reconhecer diante do espelho, decide colocar a farda e se olhar novamente. Assim que sua imagem é refletida como antes, é tomado por uma enorme alegria, pois somente através da farda é que se reconhece como pessoa.

Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação.
Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer (ASSIS, p.5)

Ao não se reconhecer no espelho sem a farda, o personagem abre diversas interpretações a respeito do “ser e do parecer”, pois ao narrar as suas sensações, demonstra o quanto a imagem de alferes completa sua alma exterior. Para Jacobina vale mais o parecer do que o ser e, sem os mimos da tia, deixou a imagem do alferes de lado.

Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros.[…] Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante fui outro. Cada dia a uma certa hora vestia-me de alferes e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir. (ASSIS, p.6)

Machado de Assis insere no conto um jogo de máscara do comportamento humano, onde o que se valoriza são as aparências e o prestígio social, ou seja, a imagem que os outros constroem para nós é muito mais importante do que o que realmente somos.

3ª Etapa: Análise e exercícios

Nesta etapa, o(a) professor(a) poderá abrir o debate com os alunos sobre as possíveis interpretações do conto, observando a crítica de Machado de Assis à sociedade das aparências.

Dê um tempo para os estudantes responderem às seguintes questões:

1) Para Jacobina, qual a importância do espelho para sua reafirmação pessoal?

2) Em uma sociedade de aparências, o indivíduo vê-se na necessidade de moldar seu comportamento para se adequar ao que se é esperado. Podemos afirmar que Jacobina é um homem alienado? Quais argumentos podem ser utilizados para demonstrar tal alienação?

3) Qual a ligação existente entre o nome do conto e o mito de Narciso?

4) Qual lugar e tempo em que se passa a narrativa?

5) Qual o lugar do narrador-protagonista deste conto?

Respostas:

1) Para Jacobina o espelho é a representação da imagem projetada por todas as pessoas ao seu redor. A imagem de Alferes é a imagem que melhor simboliza uma sociedade que valoriza as aparências, as máscaras sociais e as disputas por poder, ou seja, para Jacobina a felicidade está ligada ao julgamento do outro e não se enxergar no espelho é perder seu valor próprio.

2) Segundo o próprio narrador, antes de alcançar a patente de Alferes, era de uma classe mais pobre sem muitas expectativas: ”Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente!” (p.3) Por motivo deste acontecimento, muitas pessoas começaram a invejar sua conquista: ”Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo.” (p.3)

Aos poucos, Jacobina vai acreditando que é uma pessoa diferente das outras, se auto destacando e acreditando que todos o invejam por conseguir ser nomeado Alferes. Sua alienação aumenta ao chegar ao sítio de sua tia e, a partir de então, perde sua identidade para se tornar o Senhor Alferes: “E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes.” (p.3) Esses elementos justificam sua alienação no jogo de aparências, deixando para trás a imagem de jovem de vinte e cinco anos para projetar a imagem de homem da Guarda Nacional.

3) Narciso nasceu na região grega da Boécia. Ele era muito belo, ao nascer, um dos oráculos, Tirésias, disse que Narciso seria muito atraente e que teria uma vida bem longa. Entretanto, ele não deveria admirar sua beleza, ou melhor, ver seu rosto, uma vez que isso amaldiçoaria sua vida. Além de ter uma beleza estonteante, a qual despertava a atenção de muitas pessoas (homens e mulheres), Narciso era arrogante e orgulhoso. E, ao invés de se apaixonar por outras pessoas que o admiravam, ele ficou apaixonado por sua própria imagem, ao vê-la refletida num lago. Conheça O Mito de Narciso. Acesso em: 24 de outubro de 2019.

Já Jacobina, ao ganhar um espelho antigo, projeta sua imagem através do olhar dos outros. O espelho é a representação do jogo do “ser” e do “parecer”. Sem a farda de Alferes, Jacobina perde sua identidade. O jogo de imagem contida nas duas histórias, do mito de Narciso e “O Espelho” de Machado, pode se relacionar na medida em que ambos enxergam sua imagem refletida, cada um à sua maneira, uma autoimagem, ou seja, a imagem que cada um constrói para si próprio.

4) A narrativa se passa em Santa Teresa, Rio de Janeiro, e narra no presente um fato do passado. A narrativa se inicia in medias res, ou seja, no meio da ação.

5) O narrador é o próprio personagem Jacobina: ”tinha entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e  eterna.” (p.1) Ou seja, Jacobina é alguém que subiu na escala social e faz no conto sua auto análise sobre a necessidade do “parecer” em relação ao “ser”.

Materiais Relacionados

1) Para conhecer o gênero literário “Conto”, acessar: CORTÁZAR, Julio. “Alguns aspectos do conto”. In: Valise de cronópio. Acesso em: 21 de outubro de 2019.

2) Obra de Machado de Assis “O espelho” Acesso em: 21 de outubro de 2019.

3) Texto “Aspectos de teoria do conto em Machado de Assis”, de Raquel Parrine. Acesso em: 21 de outubro de 2019.

4) O artigo “O duplo espelho em um conto de Machado de Assis”, de Alfredo Bosi, apresenta duas análises sobre o conto “O espelho”, a primeira a partir da perspectiva sociológica e a segunda a partir da leitura existencial. Acesso em: 21 de outubro de 2019.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

O que é Divulgação Científica?

Em primeiro lugar, devemos diferenciar os termos difusão, disseminação e divulgação científica. A princípio esses termos parecem sinônimos, mas tem sentidos distintos. A difusão científica tem o conceito mais amplo de todos, se refere a todo processo de veiculação da informação científica, seja por publicações técnicas ou não, e direcionadas para um público especializado ou não. Abrange todos os outros termos.

Já a disseminação científica é a transmissão de conhecimento para um público especializado, por linguagem técnica e aprimorada de entendimento dos indivíduos seletos. Um exemplo dessa comunicação são os próprios artigos científicos, que necessitam seguir normas da ABNT e, muitas vezes, abordam tipologias técnicas que somente pessoas da área conseguem compreender plenamente.

O termo divulgação científica, desde há muito tempo, é o termo mais empregado na literatura brasileira para falar sobre a transmissão da ciência para o grande público. A divulgação é a transposição do discurso científico para o público geral, ou seja, passar o conhecimento científico através de uma linguagem acessível, de fácil compreensão, inclusive com a utilização de recursos e técnicas que facilitem esse diálogo, adaptando o discurso. Em resumo, é realizar a transposição da linguagem técnica e formal utilizada na academia para uma linguagem não-formal que consiga ser compreendida por pessoas não-especialistas em determinado assunto.

E qual a importância da divulgação científica?

Podemos apontar que os grandes objetivos dessa atividade são instruir a população nos mais diversos aspectos, contribuir para a educação científica e, quem sabe, inspirar pessoas a seguir a carreira científica. Ciência e sociedade estão há muito tempo entrelaçadas que, às vezes, nem percebemos como estamos cercados de tanta ciência e tecnologia.

O celular em suas mãos é uma máquina, um microcomputador super potente com diversos recursos de diferentes origens agrupados. A internet, o rádio, a câmera fotográfica são outros exemplos. Na sua casa, a geladeira, a televisão, o aspirador de pó, o micro-ondas são super máquinas desenvolvidas graças à pesquisa científica e ao desenvolvimento tecnológico. Poucas décadas atrás muitos desses recursos eram apenas sonhos distantes vindos de filmes de ficção científica, mas que por muita pesquisa, muito estudo e muita ciência, tornaram-se reais e acessíveis à grande parte da população.

Através dos impostos, a sociedade financia as escolas e universidades públicas e as bolsas de pesquisas concedidas. Assim, é fundamental a sociedade entender como funciona a ciência, a pesquisa, seus métodos para compreender seu papel na sociedade e poder defendê-la. Da mesma forma que é importante que os pesquisadores dialoguem com a sociedade, que mostre suas pesquisas que visam melhorar a vida das pessoas, como técnicas novas de plantio, de reciclagem, de monitoramento de encostas, de análises que viram vacinas, entre várias outras aplicações.

O objetivo maior é que cada vez mais, mais pessoas possam ter acesso à informação, ao conhecimento científico, para poderem usá-lo em seu dia a dia ou até inspirar-se a seguir carreira acadêmica. A ciência está em toda parte e todos nós podemos constantemente ajudar na sua construção.


Referência Bibliográfica

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo científico: conceitos e funções. Ciência e Cultura, São Paulo: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 37(9), p. 1420-1427, set/1995. p. 1423.

http://www.cienciaexplica.com.br/2019/02/21/o-que-e-divulgacao-cientifica/

Atividade Gênero Textual

Leia os textos abaixo:

TEXTO 1 - "A posição social da mulher de hoje"

Ao contrário de algumas teses predominantes até bem pouco tempo, a maioria das sociedades de hoje já começam a reconhecer a não existência de distinção alguma entre homens e mulheres. Não há diferença de caráter intelectual ou de qualquer outro tipo que permita considerar aqueles superiores a estas. 

Com efeito, o passar do tempo está a mostrar a participação ativa das mulheres em inúmeras atividades. Até nas áreas antes exclusivamente masculinas, elas estão presentes, inclusive em posições de comando. Estão no comércio, nas indústrias, predominam no magistério e destacam-se nas artes. No tocante à economia e à política, a cada dia que passa, estão vencendo obstáculos, preconceitos e ocupando mais espaços. 
Cabe ressaltar que essa participação não pode nem deve ser analisada apenas pelo prisma quantitativo. Convém observar o progressivo crescimento da participação feminina em detrimento aos muitos anos em que não tinham espaço na sociedade brasileira e mundial. 

Muitos preconceitos foram ultrapassados, mas muitos ainda perduram e emperram essa revolução de costumes. A igualdade de oportunidades ainda não se efetivou por completo, sobretudo no mercado de trabalho. Tomando-se por base o crescimento qualitativo da representatividade feminina, é uma questão de tempo a conquista da real equiparação entre os seres humanos, sem distinções de sexo.

TEXTO 2 - A mulher no Brasil de hoje

A mulher, até recentemente, possuía pouca participação de destaque no cenário nacional. Normalmente envolvida nas atividades do lar e na criação dos filhos, a presença feminina, na maioria das profissões, era rara ou de valor secundário, inclusive na questão do ganho salarial. No século passado, os nomes mais famosos do universo feminino estavam concentrados na área artística e cultural, tais como a música, o teatro ou a escrita. (...) 

O cenário da participação feminina no cotidiano brasileiro atual é bem diferente. Não existem mais diferenças entre as capacidades e possibilidades de ambos os sexos. Muito pelo contrário, e fruto [como consequência] da iniciativa da mulher brasileira de buscar a própria qualificação profissional aliada às [e das] políticas governamentais exclusivas sobre o tema, observa-se hoje que não existem mais barreiras para o seu progresso individual. (...)
Da mesma forma, no cenário internacional, constata-se a presença da mulher brasileira com projeção e importância. A designação feminina para ocupar as representações nacionais no exterior, tais como embaixadas, consulados e a destacada vaga de representante do País na Organização das Nações Unidas (ONU) atestam a importância desse fato no crédito ao desenvolvimento atingido pelo Brasil nos últimos anos.

Portanto, observa-se, no despertar de mais uma nova década, que a situação social da mulher na sociedade brasileira atual é consideravelmente relevante e imprescindível. Mais ativa em áreas específicas, tais como a política, economia, educação superior e na diplomacia, a mulher brasileira se firma na atualidade como clara demonstração do amadurecimento da democracia brasileira, fundamentada na igualdade de oportunidades e na plena possibilidade de ascensão social.

# Questões:
1. Sobre a ascensão da mulher no cenário nacional, esses dois textos apresentam opiniões
a) complementares
b) conservadoras
c) contraditórias
d) inconsistentes

2. Qual a informação principal do Texto 1?
a) A necessidade de equiparação entre os seres humanos
b) O crescimento da participação feminina na sociedade
c) As diferenças intelectuais entre homens e mulheres
d) Os preconceitos contra a mulher no mercado de trabalho

3. No Texto 1, há uma opinião expressa pelo autor do texto no trecho:
a) "Ao contrário de algumas teses predominantes até bem pouco tempo"
b) "Estão no comércio, nas indústrias, predominam no magistério e destacam-se nas artes." 
c) "No tocante à economia e à política, a cada dia que passa, estão vencendo obstáculos"
d) "... é uma questão de tempo a conquista da real equiparação entre os seres humanos"

4. Nos dois textos predominam o emprego da linguagem
a) coloquial
b) literária
c) culta
d) informal

5. O texto 2 é um exemplo de
a) artigo científico
b) artigo de opinião
c) reportagem
d) resenha

6. Qual é o assunto do Texto 2?
a) A atuação da mulher no mercado de trabalho 
b) A igualdade da mulher na relação ao homem
c) A liderança feminina na ONU
d) A participação da mulher no contexto nacional


Atividade Gênero Textual

 

Leia o texto abaixo:

Batida entre carro e ônibus deixa um jovem ferido em Salvador

Um jovem ficou gravemente ferido após um acidente envolvendo um carro e um ônibus de transporte coletivo, em Salvador. O acidente aconteceu na manhã desta quinta-feira (25). A batida foi registrada no retorno da Avenida Otávio Mangabeira, orla da Boca do Rio. O motivo do acidente ainda está sendo investigado.

O jovem de 28 anos que dirigia o veículo, ficou preso às ferragens do carro. Ele conseguiu ser retirado pelo Corpo de Bombeiros e levado ao hospital uma hora depois pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU).

Duas crianças também ocupavam o veículo, mas só tiveram ferimentos leves. De acordo com o motorista de ônibus, o carro tentou fazer uma manobra para fugir do semáforo. Nenhum dos passageiros se feriu no acidente. 
(Fonte: https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/lingua-portuguesa/texto-expositivo acesso em: 23.01.2020.)

1. A que gênero textual pertence o texto acima?
a) reportagem
b) notícia
c) artigo de opinião
d) editorial

2. A tipologia desse texto é predominantemente 
a) argumentativo
b) descritivo
c) expositivo
d) narrativo

3. Qual das alternativas abaixo não é uma característica do texto expositivo? 
a) tem preferência pelo conteúdo, pela mensagem
b) apresenta um assunto apenas explicando-o 
c) busca convencer o leitor a um determinado ponto de vista.
d) interpreta sem debater ou confrontar posicionamentos

4. O texto expositivo significa, basicamente, a apresentação de uma informação. Sendo assim, qual das alternativas informa o assunto central do texto acima?
a) Um jovem ficou gravemente ferido após um acidente envolvendo um carro e um ônibus
b) O motivo do acidente ainda está sendo investigado.
c) Ele conseguiu ser retirado pelo Corpo de Bombeiros e levado ao hospital
d) De acordo com o motorista de ônibus, o carro tentou fazer uma manobra para fugir do semáforo.

5. No trecho "Ele conseguiu ser retirado...", a que refere o pronome "ele" mencionado no texto?
a) Otávio Mangabeira
b) um jovem
c) um carro
d) o motorista do ônibus

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Carolina Maria de Jesus

 


Carolina de Jesus (Carolina Maria de Jesus, 1914-1977), está entre as primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil. Com problemas familiares desde a infância, era filha ilegítima sendo maltratada. Com muito sacrifício e apoio da mãe, frequentou a escola até o  segundo ano, aprendeu a ler e a escrever e foi justamente nessa época que começou a ter gosto pela leitura e escrita. Em seus manuscritos é fácil notar referências religiosas, mas Carolina foi expulsa da Igreja Católica, pois sua mãe tinha dois filhos ilegítimos. Já em sua fase adulta, também não foi readmitida na congregação, mesmo sendo católica devota. Com pouco estudo, foi uma mulher brilhante, sábia e visionária.

Sem dinheiro, Carolina só conseguia ler algo novo quando encontrava um livro ou revista que já foram descartados por outras pessoas. Apaixonada pela leitura passou a escrever sobre o dia-a-dia na favela onde morava. Desempregada e grávida, isso em 1947, morando na favela do Canindé, em São Paulo, conseguiu emprego na casa de um famoso médico que liberou a leitura de seus livros de sua biblioteca particular, já que notou a paixão da empregada. Após ter mais dois filhos, passou a ser catadora de lixo, época em que voltou a registrar o seu cotidiano, somando vinte cadernos, sendo que um deles virou livro, intitulado “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada”, publicado em 1960. O livro foi um sucesso, tendo rapidamente três edições que somaram 100 mil exemplares vendidos e tradução para 13 idiomas, vendido em mais de 40 países.

7 citações da escritora Carolina Maria de Jesus:

1 - Em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.
Carolina Maria de Jesus

2 - Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.
Carolina Maria de Jesus

3 - As crianças ricas brincam nos jardins com seus brinquedos prediletos. E as crianças pobres acompanham as mães a pedirem esmolas pelas ruas. Que desigualdades trágicas e que brincadeira do destino.
Carolina Maria de Jesus

4 - Antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário.
Carolina Maria de Jesus

5 - Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: faz de conta que eu estou sonhando.
Carolina Maria de Jesus

6 - Tem pessoas que, aos sábados, vão dançar. Eu não danço. Acho bobagem ficar rodando pra aqui, pra ali. Eu já rodo tanto para arranjar dinheiro para comer.
Carolina Maria de Jesus

7 - A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago.
Carolina Maria de Jesus



Vozes - Conceição Evaristo

 Vozes-Mulheres 

                      Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
        e
        fome.

 

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
   
(In: Poemas de recordação e outros movimentos, 3.ed., p. 24-25)

http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/24-textos-das-autoras/923-conceicao-evaristo-vozes-mulheres



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Antonio Candido

 Antonio Candido (1918-2017) foi um sociólogo, crítico literário, ensaísta e professor brasileiro, figura central dos estudos literários no Brasil. Autor de “Formação da Literatura Brasileira”, livro fundamental para quem quer entender a literatura brasileira.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro, no dia 24 de julho de 1918. Filho do médico Aristides Candido de Mello e Souza e de Clarisse Tolentino de Mello e Souza, recebeu as primeiras lições em casa, com sua mãe. Ainda criança, mudou-se com a família para a cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais.

Em 1935, já residindo em São Paulo, Antonio Candido concluiu o curso secundário no Ginásio Estadual de São João da Boa Vista, no interior do Estado. Entre 1937 e 1938 estudou no curso complementar do Colégio Universitário da Universidade de São Paulo (USP). Nessa época, militava no Grupo Radical de Ação Popular, contra o Estado Novo, no governo de Getúlio Vargas.

Formação

Em 1939, com 21 anos, Antonio Candido ingressou no curso de Direito da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e também no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Abandonou a Faculdade de Direito no 5.º período e concluiu o curso de Ciências Sociais em 1942.

No seu grupo de amigos da universidade estavam nomes importantes que despontaram depois do Modernismo de 1922, entre eles, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes e Gilda Rocha (futura Gilda de Mello e Souza). Foram os criadores de “Clima”, uma das mais importantes revistas de crítica do período, época em que iniciou sua carreira de crítico literário.

Carreira de Professor

Após formado, Antônio Cândido ingressou no corpo docente da USP, como assistente de ensino do professor Fernando de Azevedo, na cadeira de Sociologia. Em 1945 conquistou a cadeira de Literatura Brasileira, com a tese de livre-docência intitulada, “Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero”.

Em 1954, Antonio Candido obteve o grau de doutor em Ciências Sociais com a tese “Os Parceiros do Rio Bonito”, uma abordagem sumária sobre o modo de vida caipira. Entre os anos de 1958 e 1960, lecionou Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, hoje integrada à Universidade Estadual Paulista.

Em 1961 retornou à USP, como professor colaborador da disciplina de Teoria Literária e Literatura Comparada.  A partir de 1974 tornou-se professor titular da mesma universidade.

Entre 1964 e 1966, Antonio Candido lecionou Literatura Brasileira na Universidade de Paris. Em 1968 foi professor visitante de Literatura Brasileira Comparada na Universidade de Yale, Estados Unidos. Aposentou-se em 1978, mas continuou lecionando no curso de pós-graduação até 1992.

Crítico Literário

Antonio Candido iniciou sua carreira de crítico na revista Clima, entre 1941 e 1944. Em 1943 passou a colaborar com o jornal Folha da Manhã, onde reconheceu o talento de autores como, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Foi também titular do jornal O Estado de São Paulo, para o qual fez o projeto do Suplemento Literário, em 1956.

Antônio Candido era um crítico cordato, elegante, avesso ao bate-boca vulgar, mas sem deixar de ser firme. Desde 1959, Antonio Candido se tornou o nome central da crítica literária do país. O autor deixou importantes ensaios e artigos produzidos como crítico de jornal e como pesquisador acadêmico, e muitos deles foram coligidos em livros como “Brigada Ligeira” (1945), “Vários Escritos” (1970) e “A Educação pela Noite” (1987).

Formação da Literatura Brasileira

Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos, publicada em 1959, foi a obra mais importante do crítico Antonio Candido. Para o autor, a “nacionalidade” da literatura brasileira não deve ser entendida como causa necessária de alguma força telúrica, porém com efeito de uma construção cultural. Daí a relevância do subtítulo: “Momentos Decisivos” sendo os instantes em que o desejo de inventar um país moldou as atitudes.

Antonio Candido escreveu uma inovadora história literária que abertamente excluiu autores e períodos que não correspondiam à noção de “literatura propriamente dita”. A obra explicitou o caráter narrativo de toda história cultural.

Vida Pessoal

Antonio Candido foi casado com Gilda de Mello e Souza (1919-2005), professora de Estética no Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. O casal teve três filhas: Ana Luísa Escorel, designer e escritora, e Laura e Mariana, professoras de história da USP.

Antonio Candido faleceu em São Paulo, no dia 12 de maio de 2017.





Prêmios

  • Prêmio Jabuti (1965)
  • Prêmio Machado de Assis (1993)
  • Prêmio Camões (1998)
  • Prêmio Alfonso Reyes (2005), no México
  • Premio Juca Pato (2007)

Obras de Antonio Candido

  • Formação da Literatura Brasileira (1959)
  • Os Parceiros do Rio Bonito (1964)
  • Literatura e Sociedade (1965)
  • Vários Escritos (1970)
  • Presença da Literatura Brasileira (1971)
  • Na Sala de Aula: Caderno de Análise Literária (1985)
  • A Educação Pela Noite e Outros Ensaios (1987)
  • O Discurso e a Cidade (1993)
  • Estudo Analítico do Poema (1993)
  • Iniciação à Literatura Brasileira (1997)
  • O Romantismo no Brasil (2002)
  • Tempo de Clima (2002)
  • O Direito à Literatura e Outros Ensaios (2004)
  • Eça e Machado (2005)

É bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e professora do ensino fundamental.